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sábado, 5 de março de 2011

'Bom assim nunca foi não, sô', diz moradora de 'cidade do ferro'

Bicicleta é o principal meio de transporte em São Gonçalo do Rio Abaixo (Foto: Darlan Alvarenga/G1)

Dinheiro da mineração transforma cidade de MG em canteiro de obras.Comerciantes ampliam estabelecimentos e lojas ganham vitrines.

São Gonçalo do Rio Abaixo, onde está localizada a mina de Brucutu, é daquelas cidades do interior de Minas Gerais cujo centro se resume a uma única rua principal e uma igreja na parte mais alta. Todos os estabelecimentos comerciais e prédios públicos estão concentrados na mesma avenida. Não há nenhuma loja de rede e, com exceção de dois bancos e dos Correios, todo o comércio é local, comandado por famílias da cidade e da região.
Pelas ruas, a vida e as rodas de conversa na praça seguem sem pressa, na velocidade das bicicletas, principal meio de transporte da população. A rotina pacata, no entanto, contrasta com o ritmo das obras espalhadas pela cidade, patrocinadas pelos royalties da mineração, destaque do PIB em 2010. Por todos os lados há máquinas e placas com os dizeres "homens trabalhando".
As obras incluem abertura de novos loteamentos e avenidas, ampliação da rede fluvial, pavimentação de estradas, construção de pontes, casas e escolas. As duas igrejas da cidade, erguidas do século XVIII, foram fechadas para restauração, obrigando a transferência das missas para um galpão improvisado.
“Bom assim nunca foi não, sô”, diz Ornelina Ferreira Torres, de 77 anos, que mora na cidade desde os 13 anos e afirma nunca ter visto tanta prosperidade. “Todo mundo foi saindo, eu fiquei e acabei dando sorte”.

Ornelina Torres, (dir.), 77 anos, mora em São Gonçalo desde os 13 anos (Foto: Darlan Alvarenga/G1)

A renda da população em geral é baixa, mas a qualidade de vida está melhorando. “A escola é em tempo integral e ônibus pega minha filha na porta de casa”, diz Carla Aparecida, de 24 anos. "Está tudo asfaltado agora e há linhas de ônibus até a cidade", diz Adriana Silva Ribeiro, de 34 anos, moradora da zona rural e funcionária de uma escola municipal.
O "boom econômico" gerado pela extração de minério de ferro tem animado também os comerciantes, que passaram a investir na reforma e ampliação dos estabelecimentos. “Até uns 3 anos atrás, não existia vitrine nas lojas e os mercados não tinham carrinho, era o vendedor que pegava o produto na prateleira”, diz Carmen Lúcia Magela Lopes, presidente da associação comercial da cidade.
Segundo ela, são as novas gerações que estão convencendo os comerciantes a modernizarem os negócios. “Há três anos tento convencer o meu pai a transformar o galpão de depósito numa nova loja, mas só agora consegui”, diz Carmen, que assumiu o comando das Lojas Sô Hélio, versão são-gonçalense de lojas como Casas Bahia ou Magazine Luiza. “Antes eu vendia um guarda-roupa e encomendava outro. Hoje faço estoque de tudo sem medo”.
Joacir Costa, de 40 anos, dono do único restaurante self-service da cidade, decidiu erguer um novo prédio para abrigar um restaurante mais amplo e oferecer salas de aluguel. “Hoje meu restaurante só tem 8 mesas. Tenho que crescer junto com a cidade”, diz.
Há mais 40 anos no comércio da cidade, Sebastião Tolentino, de 65 anos, não compartilha o mesmo otimismo. “Tenho que ter pé no chão. Ainda falta gente pra comprar. Para o comércio crescer, tem que aumentar a renda da população. Os salários daqui são muito baixos”, diz o proprietário de um armazém que vende de legumes a panelas.Outro insatisfeito com o crescimento da cidade é o taxista Caldeci Fernandes, de 41 anos, que passou a ter que enfrentar concorrência. "Quando eu comecei no negócio, há 10 anos, eu era o único taxista da cidade, hoje já tem mais de 50", diz.

Abertura de novas avenidas estão mudando a cara de São Gonçalo (Foto: Darlan Alvarenga/G1)

Cidade ‘importa’ mão de obra

A prefeitura é a maior empregadora de São Gonçalo do Rio Abaixo. Hoje são 1.286 funcionários. Sem contar os prestadores de serviço.“Aqui, quem não trabalha na Vale, trabalha para a prefeitura”, afirma o defensor público Túlio Lage Moreira, que saiu de Itabira (MG) atraído pela proposta financeira e pelo convite para comandar a primeira Defensoria Pública da região, patrocinada pela prefeitura. “A delegacia de São Gonçalo não possui delegado fixo e a comarca mais próxima fica em Santa Bárbara. A população mais carente estava completamente fora do sistema judiciário”, afirma.
No lugar de perder moradores para cidades vizinhas, São Gonçalo passou a receber novos habitantes, desde a inauguração da mina de minério de ferro da Vale. A pedagoga Marcela Soares Fonseca, de 25 anos, saiu de João Monlevade para trabalhar na recém-inaugurada unidade do Senai. “Foi a oportunidade que surgiu e resolvi agarrar”, diz.
Mas ela não faz só elogios à cidade. “O custo de vida aqui é mais caro, há pouca variedade de lojas e faltam opções de lazer”, diz a pedagoga, que divide um apartamento com mais duas amigas e paga um aluguel de R$ 400.Na falta de parques, clubes e academias, a população tem usado as avenidas dos novos loteamentos como pistas de cooper.
Crescimento econômico tem atraído moradores de outras cidades (Foto: Darlan Alvarenga/G1)

Incentivos fiscais para novas empresas
Para atrair mais investimentos para a cidade, a prefeitura está lançando um loteamento destinado a um futuro distrito industrial. “Estamos oferecendo terreno, dando isenção de IPTU por 10 anos e ajudando até a fazer o galpão”, afirma o prefeito Raimundo Nonato Barcelos, conhecido como Nozinho.

Raimundo Nonato Barcelos, o Nozinho, prefeito deSão Gonçalo (Foto: Darlan Alvarenga/G1)
Segundo ele, seis empresas já firmaram o compromisso de se instalar na cidade. Os negócios são em sua maioria ligados à mineração e ao fornecimento de insumos para a Vale e devem gerar cerca de 400 empregos. A prefeitura procura investidores para um hotel na cidade. Hoje, a única opção para os visitantes é um hotel num posto de gasolina, na beira da rodovia.
O objetivo é manter o ritmo de crescimento em caso da atividade de mineração encolher. Ainda que pesquisas iniciais apontem a existência de outras reservas de minério na região, o tempo de duração do projeto Brucutu está estimado em mais 25 anos. “Hoje, a riqueza da cidade vem do ferro, mas estamos focando agora o desenvolvimento econômico”, diz Nozinho.
Outra preocupação da prefeitura é evitar a migração da população rural para a cidade. Daí os investimentos em pavimentação de estradas rurais, transporte público e escolas e também em capacitação ao pequeno agricultor. Hoje 50% da população vive na zona rural.“Estamos aproveitando o bom momento e criando alternativas para a zona rural também ter condições de crescer. Não queremos ficar dependentes da Vale. Minério só tem uma safra, quando acabar, acabou”, conclui o prefeito.
Fonte: Darlan Alvarenga Do G1, em São Gonçalo do Rio Abaixo (MG)

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